A varanda era sombria, mal vista era a mulher que estava sentada. Era possível avaliar apenas aspectos superficiais, o pano branco em sua cabeça e a pele escura. Ao passar pela porta de seu apartamento sentia-se um forte cheiro de mofo, as paredes se desfaziam aos poucos e sentia-se um forte nó na garganta.
Seus vizinhos diziam, não de forma delicada, que sua sanidade mental era questionável; o fato de ficar diariamente em sua varanda dizendo palavras desconexas sobre seu passado e fatores relativos à natureza humana os incomodava, ela não entendia por que, já que as pessoas podem conviver com o barulho pacificamente, porém quando se tratava da verdade a história era diferente.
A mulher sentia-se estranha nos últimos dias, não que isso importasse aos outros; por vezes era transportada à uma outra realidade, era como se flutuasse. Daquela situação decorria uma espécie de êxtase religioso, frases eram ditas sobre a condição humana em nossa sociedade corrupta, que nem mesmo ela entendia.
Uma noite foi até sua varanda, sentou-se em seu banco e começou a tricotar. Mal sabia ela que era a última vez. As palavras tomaram conta dela, não como antes; ela sentia sua consciência, a reflexão não era feita sobre aspectos exteriores à sua realidade. Falava de seus vizinhos, não como eles que se apegavam à superfície de sua existência, tocando na essência.
A possibilidade de um julgamento alheio feito por juízes inaptos era questionada, o julgamento é embasado no fato da não adequação a um determinado padrão, não somos robôs que têm a finalidade de cumprir um ciclo vital pré-estabelecido, além de tudo é necessário existir. Seus vizinhos a julgavam louca, mas não podiam suportar uma ofensa daquela, questionavam e debatiam; não fazes nada de sua vida, como pode julgar cidadãos de bem? O fazer está ligado à essência, preocupem-se com detalhes supérfluos enquanto me preocupo com a profundidade e com o tricô.
A sensação retornou, ela estava flutuando. Começou a tombar nas grades de sua varanda. Seus vizinhos não se preocuparam com isso, continuaram a falar, a julgar e a se intrometer. Foi tombando até cair do sétimo andar, não gritou.
Seus vizinhos ainda questionaram até concluir, sozinhos, que em meio à aparente loucura poderia existir um resquício de sabedoria no que ela dizia. Chamem uma ambulância. A mulher estirada na calçada esboçava um sorriso. Ela tinha herdeiros? Como era desarrumada... coitada. Os paramédicos chegaram, sempre tem uma multidão, as pessoas nunca aprendem.

3 comentários:
Você compreende a estúpidez da vida em si. E o sentido que ela tem; as diferenças de sentido. Não apreciar a essência é uma essência dentre as possíveis. Não parece, entretanto, sua opção.
Talvez o entendimento do nosso poder sobre quem nos tornamos pareça loucura em nossa sociedade. Sentir que não há destino, mas criação humana. Isso ajuda a encontrar um bocado de sentido em meio a completa estupidez da existência.
O que incomoda?
Ainda há algo além da superfície.
Abraços,
parabéns.
É sempre assim que fazem: fugiu do comportamento típico da sociedade, é louco, mandem internar, camisa de força, eletrochoque nela. Ainda está louca? Dopem a insana com dezenas de remédios por dia. Está agindo como uma pessoa NORMAL? Pronto, dêem alta à ela.
Talvez seja a INsanidade mental a nossa essência, porque eu sei que é nesse estado que as verdades vêm, às vezes vêm para machucar o próximo, daí esse julgamento dos 'normais'.
A verdade é que ninguém gosta da verdade, crua, aquela verdade "tapa na cara", no fundo as pessoas gostam mesmo é das mentiras bonitinhas, aquelas que deixam a vida falsamente colorida.
Adorei o seu texto, mesmo, parabéns Cezar. Você já faz falta na Poli.. Saudades.
Bjo =*
As pessoas sempre julgam aquilo que aparentemente "é". Nunca se importando com a essência, o que de fato, levou a tal concepção. E aqueles que conseguem enxergar a fundo, nunca se opõem à opinião da maioria.
Voltemos ao medo?
Bem, fato é que tudo aquilo que é verdade, incomoda.
Saber que você está gordo, está com um corte de cabelo ruim, etc.
E isso também se aplica na sociedade. Tudo aquilo que vai contra a opinião alheia é tratada como lixo, mentira e anarquia. O conceito de ordem é o que estabelece isso, para que haja ordem, necessita-se um senso comum, uma opinião formada e fixa, e tudo aquilo, que totalmente, ou em partes, nega ou se contraria, se transforma instantaneamente em "revolta".
Uma bela composição.
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